Quando a ajuda humanitária e a caridade minam a dignidade da pessoa humana

| December 26, 2016

Estou lendo o livro “Toxic Charity”, de Robert D. Lupton, o fundador e presidente da FCS Urban Ministries, uma organização focada em servir a comunidade local, promover o  desenvolvimento econômico e fornecer treinamentos e consultoria em Atlanta, EUA.

Dr. Lupton no seu livro, nos fornece insights e princípios importantes ao tratar da abordagem da pobreza e do desenvolvimento social ao mesmo tempo que expõe os grandes erros da ajuda humanitária.

Em um estudo feito por Dambisa Moyo, um economista africano, em seu livro “Dead Aid”, foi descoberto que 85% da ajuda humanitária direcionada à África não chega nas áreas de maior necessidade, mas são direcionadas a usos improdutivos e corruptos. E mesmo com todos os esforços para a erradicação da pobreza nesses países subdesenvolvidos durante anos, a crise parece ficar cada dia maior.

Acerca do tema, Dr. Lupton, explica que quando nós fazemos ao necessitado aquilo que ele mesmo poderia fazer por si, ao invés de ajudá-lo, estamos prejudicando-o. Argumenta que dar ao necessitado aquilo que ele ganharia através da sua própria iniciativa talvez seja o ato  mais doce de destruição da dignidade do outro indivíduo.É que muitas vezes reduzimos aqueles que receberão nossas doações em objetos da nossa compaixão e ao invés de calcular os efeitos e reais benefícios e prejuízos da nossa ação, somos levados pelos sentimentos que envolvem o ato de dar.

Os motivos são nobres. Queremos melhorar a vida do outro, alimentar o faminto, dar água ao sedento e vestir o nu. Todavia, a ajuda, apesar de bem-intencionada, pode causar diversos danos àquele que é ajudado. Isto porque doações voluntárias sem o devido planejamento e o envolvimento dos indivíduos pode gerar extrema dependência, enfraquecer negócios locais e minar a criatividade e capacidade de produção de renda independente.

As missões humanitárias, além de serem extremamente caras, são muitas vezes ineficientes. Se todo o dinheiro gasto com alimentação, passagens aéreas, acomodação e organização fossem investidos nas pessoas e nas comunidades que são servidas, os resultados poderiam alcançar maiores números e maior efetividade.Além do mais, muitos dos trabalhos feitos por voluntários seriam executados em menor tempo e com melhores resultados, se feitos pelos próprios moradores.

Investimentos inteligentes exigem parcerias com os próprios governos locais dispostos a ajudarem a si próprios e a assumirem o controle pelo resultados de cada estratégia de desenvolvimento. Doações sem contraprestação devem se limitar a situações emergenciais, que servirão apenas para estancar o sangramento da situação por um curto período de tempo. Empréstimos devem servir para auxiliar na construção de pequenos negócios dos próprios indivíduos, para que assim possam desenvolver suas habilidades e criarem uma base orgânica e independente de receita.

Além disso, é necessário que os cidadãos locais sejam ouvidos em suas necessidades e atuem como protagonistas das mudanças de suas próprias vidas ao invés de as assistirem como se espectadores fossem. Isto evita casos como o de uma igreja no Equador que foi construída por voluntários mas nunca foi usada como igreja, porque a comunidade não necessitava daquele prédio.

Seja por falta de planejamento e estrutura nas ações, seja pela busca do lucro na indústria da pobreza (como bem mostra o documentário Pobreza S.A.) grandes prejuízos podem ser causados. Boas intenções são importantes, mas quando se trata de um assunto tão complexo quanto o desenvolvimento social e o pensamento cultural dos povos, é preciso mais do que nobreza de motivos para agir. É preciso repensar nos efeitos, nos projetos e acima de tudo, ter em mente de que àqueles que serão ajudados não são objetos pelos quais devemos derramar nossa pena, mas indivíduos dotados de extrema criatividade, habilidades únicas, inteligência e racionalidade para se readaptarem e reassumirem a direção de suas próprias histórias.

 

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